5 de março de 2026
“Tratado de Cuidados Paliativos”...
Em um marco editorial e científico para a área de saúde, será lançado no próximo 12/03, no Distrito Anhembi, em São Paul...
Em um episódio denso, sensível e imprescindível para a saúde brasileira, o PalliCast – podcast da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) – dedicou-se a discutir como o racismo estrutural impacta o acesso, a qualidade e os desfechos do cuidado à população negra, especialmente no campo dos cuidados paliativos.
Em alusão ao Dia da Consciência Negra, o episódio nº 57 do programa reuniu vozes essenciais: Silvana Aquino, psicóloga com ampla atuação em oncologia e cuidados paliativos, e Mariana Aguiar, assistente social, pesquisadora e integrante da Academia Estadual de Cuidados Paliativos de São Paulo. A mediação ficou por conta de Érika Lara, diretora de Comunicação da ANCP, e de Aline Cintra, assistente social e diretora Científica da ANCP.
O episódio começou com a reflexão de Silvana sobre o “lugar de vivência” de pessoas negras no Brasil – conceito que ultrapassa o chamado “lugar de fala” e traduz a experiência concreta, subjetiva e coletiva do racismo. Ela relembrou episódios pessoais e profissionais que moldaram sua compreensão da desigualdade racial, ressaltando que a população negra inicia sua trajetória em um ponto de partida estruturalmente desfavorecido. “A desumanização do corpo negro no Brasil é histórica. Mesmo quando avançamos individualmente, carregamos memórias e cicatrizes de séculos de negação de dignidade”, afirmou.
Silvana também destacou a discrepância no diagnóstico e tratamento de doenças graves, especialmente na oncologia, área em que atua. Estudos e vivências clínicas – como mencionou – mostram que pessoas negras têm maior probabilidade de receber diagnóstico tardio, ser menos tocadas durante exames físicos e ter sua dor subestimada. “Não é sobre biologia. É sobre acesso. É sobre racismo institucionalizado”, reforçou.
Mariana trouxe uma análise contundente sobre a relação entre território, políticas públicas e desigualdade racial. Explicou que os mapas da desigualdade nas grandes cidades brasileiras demonstram, ano após ano, que os bairros mais pobres, mais distantes e com menor oferta de serviços de saúde são também os mais negros. “É ali que faltam UBS, leitos de UTI, especialistas, transporte e oportunidades. E é dali que vêm a maior parte dos nossos pacientes”, pontuou.
A assistente social também ressaltou a importância da obrigatoriedade da coleta do quesito raça-cor, vigente desde 2017, elemento fundamental para o planejamento de políticas de saúde e para o reconhecimento identitário dos pacientes. Segundo ela, muitos serviços ainda negligenciam essa coleta, revelando despreparo institucional e reforçando invisibilidades. “Não existe cuidado integral quando a identidade do sujeito é ignorada”, completou.
Durante o debate, as convidadas ressaltaram que o cuidado paliativo, por essência biopsicossocial e espiritual, exige que equipes reconheçam e compreendam a vida inteira do paciente − e não apenas sua doença. No caso da população negra, isso implica atenção às suas experiências de violência, exclusão, silenciamento e perda. Silvana relatou o caso de um paciente negro que só conseguiu falar sobre seu sofrimento emocional quando encontrou uma psicóloga negra. Ele descreveu anos de dor invisibilizada e o impacto psicológico da morte violenta do irmão − história que ilustra como os lutos da população negra são frequentemente interrompidos, sufocados e invalidados.
Aline trouxe ao programa uma vivência de sua prática profissional: o caso de uma mãe negra que perdeu o filho após duas idas ao serviço de saúde em que suas queixas foram minimizadas. O episódio, reconhecido no programa como racismo institucional, evidenciou o quanto a falta de escuta e a desqualificação do sofrimento se tornam determinantes de morte. Mariana reforçou que “acolher o luto não é silenciar, mas nomear o que aconteceu − inclusive o racismo − e garantir que essa família tenha acesso a canais de denúncia e proteção”.
Outro ponto importante abordado foi o papel da branquitude no combate ao racismo. Para as convidadas, pessoas brancas precisam reconhecer seus privilégios e assumir responsabilidade ativa na transformação estrutural. Mariana provocou: “Foram quatro séculos de escravização e pouco mais de cem anos de liberdade concedida sem reparação. Não é tarefa da população negra resolver sozinha o que não criou”. Silvana complementou que o movimento antirracista exige compromisso, educação continuada e disposição para enfrentar desconfortos pessoais e institucionais.
A conversa também destacou a urgência de inserir debates sobre raça nas formações em saúde e cuidados paliativos, valorizando produções brasileiras, vozes negras e políticas já existentes, como a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Para as convidadas, o cuidado paliativo só será verdadeiramente universal quando incorporar a realidade social das pessoas negras, que representam a maioria do país.
Ao final, Érica e Aline agradeceram às convidadas pela profundidade do diálogo e reforçaram o compromisso da ANCP em ampliar discussões que promovam equidade e transformem práticas profissionais. “Não é possível sair deste episódio como entramos”, afirmou Érica. Em coro, as convidadas encerraram com um chamado: que o antirracismo deixe de ser discurso anual e se torne prática diária em todos os serviços de saúde.
Clique aqui e ouça o episódio nº 57 do Pallicast na íntegra.
Thais Abrahão – Presstalk Comunicação
NOV/25
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